Por Felipe Imperatrice
O Riocentro fechou as portas da quarta edição do Web Summit Rio com números que confirmam a maturidade do evento como principal vitrine de inovação da América Latina. Foram quatro dias, entre 8 e 11 de junho, mais de 40 mil participantes de mais de 100 países, cerca de 1.570 startups (recorde da história do evento) e perto de 690 investidores credenciados. Mas o dado mais relevante desta edição não está nas planilhas de público. Está na mudança de tom das conversas nos palcos.
De "o que a IA pode fazer" para "quem controla a infraestrutura"
Se as primeiras edições cariocas foram tomadas pelo fascínio com o potencial da IA generativa, 2026 marcou uma virada. A pergunta que atravessou painéis, masterclasses e conversas de corredor deixou de ser sobre capacidade técnica e passou a ser sobre poder. Quem vai construir e controlar a infraestrutura que faz a inteligência artificial funcionar na prática. Data centers, energia, soberania de dados e nuvem nacional ocuparam mais espaço do que demonstrações de produto.
O primeiro dia já deu o tom. Ao lado de um robô humanoide listado oficialmente como palestrante, a prefeitura do Rio anunciou o Rio AI City, projeto de data centers em parceria com a Elea Data Centers, com capacidade projetada de até 3,2 gigawatts e investimento estimado em US$ 10 bilhões ao longo da próxima década. Junto com o anúncio veio a confirmação de que o contrato entre a cidade e o Web Summit foi renovado por mais cinco anos, garantindo edições até 2030. O impacto econômico projetado das oito edições do evento no Rio chega a R$ 1,8 bilhão, com a edição de 2026 sozinha respondendo por mais de R$ 170 milhões só no setor hoteleiro.
Os nomes que pautaram o debate
No palco principal, um dos momentos mais comentados foi a participação de Luana Lopes Lara, mineira de Belo Horizonte, ex-bailarina do Bolshoi e cofundadora da Kalshi, maior plataforma de mercados preditivos dos Estados Unidos. Em abril, o Conselho Monetário Nacional havia bloqueado a criação desse tipo de plataforma no Brasil, travando uma parceria que estava em construção com a XP. No palco, ela tratou o tema sem rodeios, afirmando que a empresa ainda pretende operar no país e que vai trabalhar junto ao governo para isso. A estratégia descrita foi a mesma usada nos Estados Unidos antes da aprovação regulatória por lá, apostar em educação do mercado e dos reguladores antes de qualquer avanço legislativo.
Do lado de conteúdo, a WGSN trouxe sua Global Chief Customer Officer, Daniela Dantas, para discutir como a IA está remodelando os fundamentos do marketing e do comportamento do consumidor. Painéis reunindo Claro, Oracle e Nvidia, além de uma sessão da Comissão Europeia, reforçaram o eixo central da edição, infraestrutura como terreno de disputa estratégica entre países, empresas e modelos de negócio.
O avanço da IA agêntica e o "vibe coding"
Entre os temas técnicos, dois se destacaram como sinal do próximo ciclo. O primeiro foi a consolidação da IA agêntica, sistemas autônomos capazes de executar processos completos sem supervisão constante, negociando serviços e tomando decisões operacionais. O segundo foi o debate sobre "vibe coding", a ideia de que plataformas como o Replit permitem criar software funcional sem depender de grandes equipes de engenharia, o que reabre a discussão sobre o tamanho ideal de times de produto daqui para frente.
Um ponto levantado por executivos do setor financeiro, como a gerente de marketing da Zoop, Marcella Calfi, foi o descompasso entre a infraestrutura de pagamentos atual, pensada para pessoas, e um cenário em que agentes de IA passam a transacionar entre si. Senhas, cartões e autenticação tradicional não foram desenhados para máquinas negociando com máquinas, o que explica por que identidade digital, regras programáveis de pagamento e tokenização de ativos ganharam tanto espaço nos debates. Pix, Open Finance e o Drex aparecem como base relativamente favorável ao Brasil nesse movimento.
O soluço do dia seguinte
O evento também teve seu momento de ressaca. No dia seguinte ao encerramento, a IplanRio lançou o Rio Open 3.5, modelo de IA aberto com 397 bilhões de parâmetros, anunciado com resultados que teriam superado modelos chineses como o DeepSeek em testes não verificados de forma independente. Dias depois, o laboratório chinês Nex-AGI apontou que o modelo carioca era, na prática, uma fusão entre o Nex-N2-Pro e o Qwen3.5-397B da Alibaba, combinação que a documentação inicial não mencionava por completo. A IplanRio confirmou o uso da técnica de fusão de pesos e atribuiu a divulgação incompleta a uma falha operacional. Do ponto de vista técnico, misturar modelos open source não é irregular, é prática comum e mais barata do que treinar do zero. O problema apontado pelos pesquisadores chineses foi a falta de crédito às tecnologias de base usadas na fusão.
O que fica para quem lidera negócios
A leitura que fica desta edição é que o discurso sobre inteligência artificial amadureceu mais rápido do que a infraestrutura capaz de sustentá-lo. O Rio se posicionou com clareza como aposta de longo prazo do poder público em tecnologia, mas o episódio do Rio Open 3.5 mostra que anúncios grandiosos ainda precisam de rigor técnico e transparência para não perderem credibilidade em poucos dias. Para quem toma decisão de investimento ou de adoção de IA dentro das empresas, o recado do Web Summit Rio 2026 é direto. A pergunta relevante não é mais se a tecnologia funciona, é se a organização tem a infraestrutura, a governança e os processos de verificação para sustentar o que promete entregar.
A próxima edição já está confirmada, entre 14 e 17 de junho de 2027.
