Por Ana Helena Banys

Maio marca a virada de página no calendário de eventos de tecnologia e inovação no Brasil. A primeira metade do ano já deixou sinais claros do que vai dominar as conversas até dezembro. Inteligência artificial deixou de ser tema de painel isolado e virou fio condutor de praticamente toda a agenda, da liderança executiva ao varejo digital. A segunda metade promete aprofundar essa pauta, com foco maior em ROI, governança de dados e consolidação do ecossistema de startups.

Maio, o mês mais concentrado do ano

A própria semana em que este texto é escrito concentra três eventos relevantes. O Digital Tech Show, no Centro de Convenções Frei Caneca em São Paulo, reúne o AI Innovation Show e o AI + IM Brazil Forum sob o mesmo teto, sintoma de como os organizadores estão empacotando diferentes verticais de IA num único selo. No mesmo fim de semana, Gramado recebe a nova edição do Gramado Summit, um dos eventos mais consolidados do país entre empreendedores e criadores de conteúdo. O tema escolhido para 2026, "Make It Human", é revelador. Depois de dois anos de discurso quase exclusivamente técnico sobre IA generativa, o mercado começa a sentir necessidade de recolocar a experiência humana no centro do debate.

Ainda em maio, a Women in Tech Global Conference amplia a conversa sobre representatividade no setor, e o Rio2C fecha o mês como o maior encontro de criatividade da América Latina, reunindo mídia, entretenimento e educação num só palco.

Junho traz o Web Summit Rio

O evento mais aguardado do primeiro semestre é o Web Summit Rio, no Riocentro, entre os dias 8 e 11 de junho. É hoje o maior evento de tecnologia da América Latina e funciona como termômetro de quanto capital internacional ainda enxerga o Brasil como ponto de entrada estratégico. A expectativa é que IA aplicada a negócios, big tech e o futuro do trabalho dominem os palcos principais.

Agosto reforça o eixo Rio-Florianópolis

O segundo semestre abre com a Rio Innovation Week, entre 4 e 7 de agosto no Pier Mauá, pensada como porta de entrada para quem ainda está começando a se envolver com tecnologia e IA. Poucas semanas depois, Florianópolis recebe o Startup Summit, entre 26 e 28 de agosto, consolidando a cidade como capital nacional das startups. São dois eventos com públicos complementares, um mais iniciante, outro mais maduro, e que juntos resumem bem a distância que ainda existe entre o discurso sobre IA e sua aplicação prática nas empresas brasileiras.

Outubro e novembro fecham o ciclo com negócios

Outubro é o mês do G4, em São Paulo, entre 29 e 31, com foco em gestão, liderança e escala, voltado a fundadores e diretores que já superaram a fase de sobrevivência e agora buscam eficiência operacional. Antes disso, no fim de setembro e início de outubro, o D2C Summit reúne marcas que vendem direto ao consumidor, discutindo growth e retenção num momento em que o e-commerce brasileiro também está sob pressão para provar retorno sobre investimento em IA. O calendário se encerra em novembro com o Big Data & AI Brazil Experience, que assume o papel de evento mais técnico do ano, fechando o ciclo iniciado lá em março com o South Summit Brasil.

O que essa agenda revela

Três movimentos ficam claros quando se olha o calendário como um todo. Primeiro, a IA deixou de ser assunto de evento especializado e passou a atravessar toda e qualquer conferência de negócios, inclusive as voltadas a marketing, varejo e liderança. Segundo, o discurso está migrando da euforia em torno da tecnologia para a cobrança por resultado concreto, o que explica a insistência em termos como ROI e eficiência operacional nos materiais de divulgação dos eventos do segundo semestre. Terceiro, o eixo geográfico segue concentrado em São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis, mas cidades médias como Gramado e Santa Rita do Sapucaí continuam disputando espaço como alternativas de conexão mais informal e menos saturada.

Para quem lidera equipes ou toma decisões de investimento em tecnologia, a recomendação prática é simples. Escolher menos eventos e ir mais fundo. A agenda de 2026 é generosa em quantidade, mas a diferenciação está em quem consegue transformar essas conversas em decisões concretas de alocação de capital e de pessoas.