Por Pedro Teberga
O South by Southwest chegou à sua 40ª edição em Austin, entre 12 e 18 de março, e decidiu comemorar o aniversário redondo mudando praticamente tudo. Com o histórico Austin Convention Center fechado para reforma pela primeira vez em mais de três décadas de evento, o festival se espalhou por hotéis, ruas, teatros e rooftops do centro da cidade. Mais de 850 sessões, cerca de 4.400 músicos em mais de 300 showcases e perto de 450 marcas ativando pela cidade confirmam que o SXSW não perdeu escala ao perder seu endereço fixo. Só ficou mais difícil de acompanhar sozinho.
O Brasil manteve o protagonismo que já vinha construindo nos últimos anos. Cerca de 1.500 brasileiros passaram por Austin, com pelo menos 40 palestrantes nacionais nos palcos. A SP House voltou ampliada, com 2.200 m² na Congress Avenue, e Minas Gerais estreou casa própria, a Casa Minas, na Rainey Street. O tema oficial da edição, "All Together Now", deu o tom do que se seguiu, uma tentativa de reposicionar a conversa sobre tecnologia em torno da convivência entre pessoas, planeta e inteligência artificial, e não apenas da tecnologia em si.
Amy Webb enterrou o próprio relatório
O momento mais simbólico da semana não veio de nenhum executivo de big tech. Foi Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group, quem produziu a cena mais comentada do festival. Depois de quase duas décadas apresentando seu tradicional relatório de tendências, ela subiu ao palco num cenário decorado com flores, todo mundo de preto, para anunciar o fim do documento. A mensagem por trás do funeral simbólico foi direta, um PDF estático de tendências isoladas já não dá conta da velocidade das mudanças atuais. No lugar do relatório, Webb lançou o Convergence Outlook 2026, batizando o momento atual de Era da Convergência, marcada por três frentes que se cruzam ao mesmo tempo, o corpo humano virando plataforma tecnológica, a chegada do trabalho sem limites via automação e IA, e a crescente transferência de funções emocionais humanas para máquinas.
A cobrança pelo tempo que a automação prometeu e não deu
Se em edições anteriores a conversa girava em torno do que a IA seria capaz de fazer, 2026 trouxe uma cobrança mais dura sobre o que ela de fato entregou. Numa conversa organizada pela White Rabbit e o WhatsApp, o futurista Ian Beacraft e a especialista em conexão social Kasley Killam levantaram um ponto que boa parte da programação evitava nomear diretamente. A promessa histórica de que máquinas dariam às pessoas mais tempo livre nunca se confirmou na prática, e a automação segue apenas realocando esse tempo para mais trabalho. Numa gravação ao vivo do podcast Pivot, o professor da NYU Scott Galloway foi na mesma direção por outro ângulo, apontando que boa parte das empresas digitais mais valiosas do mundo constrói seus modelos de negócio em cima de maximizar engajamento e dependência, de redes sociais a apostas on-line e criptomoedas.
Agentes de IA como a próxima onda
Do lado mais técnico, o consenso foi que os agentes de IA representam a segunda onda da inteligência artificial depois da explosão dos modelos generativos. Softwares capazes de assumir o controle do computador do usuário, cruzar informações entre e-mail, calendário e blocos de notas, preencher formulários na web sozinhos ou resumir conversas de WhatsApp ganharam espaço central nas demonstrações práticas do festival, com ferramentas como o OpenClaw citadas como exemplo do quanto esse tipo de automação pode ser intrusivo e poderoso ao mesmo tempo. Do lado da mobilidade, a Waymo seguiu operando carros totalmente autônomos em Austin havia mais de um ano, disponíveis via aplicativo da Uber, uma demonstração de que parte dessa tecnologia já deixou de ser palco de painel para virar rotina de quem visita a cidade.
Cultura, cinema e a delegação brasileira no cinema
O SXSW não vive só de tecnologia, e 2026 reforçou isso com uma programação de cinema forte, incluindo a première mundial de "Beast Race", novo filme de Fernando Meirelles ambientado num Rio de Janeiro distópico, com elenco reunindo Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Seu Jorge e Anitta. Do lado da música, atrações como Alanis Morissette, com participação de St. Vincent, e apresentações de Los Lobos e Charley Crockett fecharam a semana musical, ao lado de nomes emergentes que o festival tradicionalmente ajuda a projetar.
O que fica
A leitura de quem esteve em Austin este ano é que o SXSW parece menos interessado em prever o futuro e mais disposto a provocar perguntas incômodas sobre o presente. A decisão de Amy Webb de encerrar seu próprio relatório de tendências é o símbolo mais claro disso, um reconhecimento público de que o modelo de antecipação linear já não serve para um mundo em que tecnologia, economia e comportamento social mudam ao mesmo tempo e se retroalimentam. Para quem lidera empresas e times, o recado da edição de 40 anos do festival é que a vantagem competitiva está deixando de ser puramente técnica. Está migrando para a capacidade de interpretar, contextualizar e dar sentido ao que a IA já entrega em escala, o que exige menos fascínio com a ferramenta e mais rigor sobre como ela é usada.
